ENTREVISTA
Entrevista — Processo de Criação das Tirinhas da Sam, Literatura Surda e Produção Artística
Por Papilon Rose
Introdução
Nesta entrevista, o professor e pesquisador Claudio Alves Benassi fala sobre seu processo de criação artística, a produção das tirinhas da personagem Sam, a relação entre Libras, literatura surda e escrita de língua de sinais, além de reflexões sobre cultura, identidade, recepção do público e o papel da arte no tempo presente.
A conversa aborda também questões relacionadas à produção literária em Libras, à circulação de conteúdos visuais para a comunidade surda e aos desafios de consolidar uma literatura surda escrita.
Processo de Criação e Produção Artística
Como surgiu o processo de criação das tirinhas da Sam?
A personagem Sam surgiu dentro de um movimento muito ligado ao meu próprio tempo de vida, às minhas reflexões e ao meu processo artístico. As ideias geralmente aparecem primeiro na minha mente em Libras. Eu visualizo toda a tirinha, os diálogos, as expressões, a narrativa, e somente depois vou para o computador iniciar a produção.
Primeiro faço as ilustrações, crio os prompts para as imagens, depois desenvolvo a escrita de língua de sinais e posiciono essa escrita dentro das ilustrações e dos slides para montar a tirinha. Depois vem a tradução para a língua portuguesa e a finalização.
Tudo passa primeiro pela Libras. A personagem é concebida em Libras e isso é muito importante para mim enquanto processo de criação.
O que te coloca em movimento de produção?
Às vezes uma tirinha passa de cem visualizações. Às vezes recebe apenas uma curtida ou um comentário pequeno. Se eu fosse pensar apenas em números, talvez eu nem continuasse produzindo.
Tenho pouco mais de cento e trinta seguidores no TikTok. Se uma tirinha teve noventa visualizações, isso significa que parte das pessoas talvez nem tenha se interessado em visualizar.
Por isso, eu procuro não me preocupar com o auditório e nem com a forma como a recepção acontece. Também não produzo com o objetivo de receber curtidas. Curtidas, comentários, engajamento, tudo isso é externo a mim. É ruído externo. Eu não controlo isso. O que eu controlo é o fazer.
Existe em mim uma necessidade de criar e eu simplesmente faço. Isso está dentro do meu controle. É justamente isso que me coloca em movimento de produção.
O que você considera mais importante no seu processo criativo?
Hoje, o elemento mais importante no meu processo criativo é o tempo em que vivo. É o contexto político, social e humano do presente que me impulsiona a criar. Muitas vezes minhas produções surgem da necessidade de dizer algo sobre o mundo em que vivemos.
Questões relacionadas à opressão religiosa, preconceitos, intolerâncias e dores humanas acabam atravessando minha produção artística. Eu testemunhei situações muito difíceis dentro da própria família relacionadas à repressão religiosa e à sexualidade. Então existe um querer dizer que eu não consigo calar.
O tempo presente subsidia todas as minhas criações. A tirinha da Sam, a Charge d'5ª, o Filósofo, a Profa Ju, os contos, poemas, crônicas e romances, tudo está ligado ao meu tempo. Mesmo quando escrevo sobre o passado ou sobre distopias futuristas, o problema discutido é sempre o problema do presente. Eu recrio meu tempo por meio da arte.
Cultura Surda e Identidade
Como a cultura surda aparece nas tirinhas?
Quando pensamos em cultura surda, muitas vezes recorremos às definições que falam sobre artefatos culturais, eventos surdos, casamentos surdos, arte surda e outros elementos. Mas transmitir tudo isso por meio de uma tirinha é muito complexo.
Por isso, para compreender a presença da cultura surda nas tirinhas da Sam, eu recorro a outras concepções de cultura. Uma delas é a de Bakhtin, que entende a cultura como produção de sentido social. Outra é a de Clifford Geertz, que define cultura como uma teia de significados construída pelos sujeitos.
A Sam é uma jovem surda de dezoito anos. Ela possui o universo dela, suas experiências, suas formas de significar o mundo. Nas primeiras tirinhas, por exemplo, ainda não aparecem muitos elementos explícitos ligados à Libras.
Mas toda a narrativa está em escrita de língua de sinais. Ela se apresenta dizendo: “Eu sou surda”. Isso já é um significado construído por ela mesma. Ela apresenta seu sinal pessoal. Isso também é cultura.
Mais adiante, a personagem contará que não nasceu surda, mas ficou surda posteriormente. Ela falará sobre a relação com a mãe, sobre o uso do aparelho auditivo e sobre o momento em que decide abandoná-lo quando alcança a maioridade. Tudo isso constitui a experiência surda da personagem. São sentidos sociais e subjetivos que formam sua identidade.
Literatura Surda
Você considera a tirinha uma expressão da literatura surda?
Sim, considero. Primeiro pelo tripé formado por Libras, língua portuguesa e imagem. A personagem central é uma personagem surda e sinalizadora. Além disso, toda a concepção da tirinha acontece primeiro em Libras.
A narrativa nasce na língua de sinais antes de ser transformada em escrita, ilustração ou tradução para a língua portuguesa. Esses elementos fazem com que eu compreenda a tirinha como uma manifestação da literatura surda.
Qual a importância de produzir conteúdos visuais para a comunidade surda?
A principal importância está em preencher uma lacuna histórica. Mesmo após mais de vinte anos da Lei de Libras, ainda existe uma ausência muito grande de literatura em língua de sinais, principalmente literatura escrita em língua de sinais.
Grande parte da literatura surda circula em vídeo, o que acaba limitando sua circulação e preservação. Existe uma demanda reprimida por literatura surda escrita. Quanto mais produzirmos, mais conseguiremos consolidar esse espaço.
Além disso, acredito que ainda estamos construindo uma Libras literária. Já conseguimos perceber uma Libras acadêmica se formando, principalmente no meio universitário, mas ainda precisamos desenvolver uma linguagem literária própria da Libras. E isso só será possível produzindo literatura. Principalmente literatura escrita em língua de sinais.
Circulação e Recepção das Tirinhas
Onde as tirinhas são publicadas?
As tirinhas são publicadas no blog “Aprendiz Cao Benassi”, além de plataformas como YouTube, Instagram e TikTok.
Como o público reage às produções?
A recepção ainda é muito marcada por números pequenos de visualizações, curtidas e comentários. Ainda não existe uma devolutiva suficiente para fazer uma mensuração mais profunda sobre a recepção. Os comentários aparecem de forma pontual.
O retorno do público influencia sua produção?
Não diretamente. Minha produção artística ainda está muito ligada ao meu próprio devir, à minha própria arquitetônica. O público influencia mais as reflexões diárias que publico nas redes sociais.
Às vezes, surge algum comentário que me faz refletir e elaborar uma resposta. Mas em relação às crônicas, contos e tirinhas, ainda não existe uma devolutiva capaz de direcionar minha produção artística.
Críticas, Haters e Discussões sobre Literatura Surda
Você recebe críticas? Como lida com isso?
Eu tive apenas um episódio mais intenso de ataques, quando alguns haters comentaram em um vídeo de reflexão diária. Minha resposta foi simples: responder com educação e tranquilidade. A visão que tenho disso é muito influenciada pelo estoicismo. Entendo que esses comentários pertencem ao outro, não a mim. São externos ao meu controle.
Se alguém faz um comentário ofensivo, eu avalio racionalmente aquilo. Se existe verdade, não há motivo para me ofender. Se não existe verdade, também não há motivo. Então procuro lidar com tranquilidade e neutralidade. A palavra do outro pertence ao outro.
O que você pensa sobre a ideia de que apenas pessoas surdas podem produzir literatura surda?
Entendo que as pessoas têm o direito de pensar assim, mas eu não concordo. Acredito que qualquer pessoa que domine a língua de sinais pode produzir arte em língua de sinais.
Existem muitos artistas que produzem em outras línguas sem serem originalmente pertencentes àquela cultura linguística. Cantores internacionais interpretam músicas em várias línguas diferentes e isso não invalida suas produções.
Para mim, o que define a literatura surda não é a condição física do autor, mas o processo de produção, a arquitetônica e a forma composicional da obra.
Reflexão Final
Que mensagem você gostaria de deixar?
Ainda me surpreendo quando sou chamado de escritor. Quando fui convidado para falar sobre meu processo de criação literária em uma palestra, isso me marcou muito. Mas acredito que minha produção já possui consistência, identidade e um caráter próprio.
Talvez eu precise, cada vez mais, reorganizar meu tempo para conseguir produzir com mais profundidade. Ter leitores ou não ter leitores é consequência do fazer. Eu simplesmente faço. Mas devo dizer que receber a foto de uma pessoa lendo um livro meu foi algo muito significativo.
Saber que alguém entrou em contato com aquele universo que imaginei e criou sentido a partir dele é algo extremamente realizador. Se minha produção for significativa para pelo menos uma pessoa, então já valeu a pena.
Considerações Finais
A entrevista evidencia como a produção das tirinhas da Sam ultrapassa a simples criação estética e se constitui como espaço de reflexão sobre linguagem, identidade, cultura surda, literatura e experiência humana.
Ao articular Libras, escrita de língua de sinais, imagem e língua portuguesa, o processo criativo apresentado aponta para possibilidades de consolidação de uma literatura surda escrita e para a ampliação dos espaços de circulação da produção artística em língua de sinais.
Mais do que buscar números ou engajamento, a produção artística apresentada se sustenta na necessidade ética e estética de dizer algo sobre o próprio tempo e transformar experiências em linguagem.
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