CHARGE D'5ª
"O governo sabe exatamente onde você dormiu ontem à noite, mas jura que não
consegue descobrir para onde foram os milhões que sumiram dos cofres públicos.
Vivemos numa era de transparência radical, mas unilateral. De um lado, o cidadão comum é
colocado sob um microscópio digital de alta precisão. Cada centavo, cada café, cada noite
em um hotel é um rastro indelével no grande livro do Estado. Este é o tema de nossa
charge de quinta de hoje.
A filosofia de Michel Foucault nos ensina sobre o Panóptico: uma estrutura na qual você é
vigiado sem saber que está sendo visto. Mas no nosso caso, a lente mudou. Não é apenas
vigilância; trata-se de uma minuciosa dissecação financeira. O Estado sabe quem você é
através do que você gasta.
Contudo, o absurdo surge quando essa mesma lente se volta para o horizonte do poder. Ali,
o microscópio é substituído por uma venda. O dinheiro público, que deveria ser o mais
rastreável dos bens, entra em uma zona de sombra. Milhões tornam-se névoa, enquanto
centavos do trabalhador tornam-se provas.
Isso revela uma verdade desconfortável: a fiscalização deixou de ser um instrumento de
justiça para se tornar uma ferramenta de controle social. Porém quando o governo rastreia o
indivíduo mas "perde de vista" o corrupto, ele não está apenas falhando, ele está
escolhendo o que enxergar.
A pergunta que fica é: até quando aceitaremos um sistema que tem olhos de águia para o
povo e cegueira seletiva para si mesmo?
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