A POLITICAGEM TUPINIQUIM EM PAUTA

O CIRCO CLIMÁTICO E O FUZUÊ NACIONAL


Uma crônica de Cao Benassi


E eis que o tapete vermelho foi estendido sobre a lama. Vieram para Belém e transformaram a COP, melhor dizendo, a FLOP 30, num suntuoso palco para a luxuosa hipocrisia global. Assim, chegaram jatinhos executivos gastando aproximadamente mil litros de combustível por hora para debater a redução da emissão de carbono. Enquanto isso, as águas belenenses, por sua vez, continuam debatendo a falta de saneamento básico.

A alta cúpula se hospedou em navios de cruzeiro, que gastam a bagatela de trinta e cinco mil litros de combustível por hora, fingindo não ver o esgoto correndo a céu aberto pela-bela-belém. Enquanto a hipocrisia cega os olhos dos chefes de Estado e de governo, parlamentares, cientistas, líderes indígenas, representantes da sociedade civil, celebridades e ativistas,  o Brasil mostra que a sustentabilidade é premium e que a miséria é standard.

Esse é o preço da salvação: na zona azul da conferência, uma reles garrafa de água mineral custava R$ 25,00 e a coxinha, que não é a da torneada e bela belenense, saía por  míseros R$ 45,00, compondo o mais silencioso manifesto contra o aquecimento global do nosso bolso. Afinal, para salvar o planeta contra os nefastos efeitos do satânico-predatório-capitalismo, o primeiro sacrifício é o orçamento do cidadão comum.

E o rol de esquisitices da hipócrita gentarada que passa nos anais da FLOP 30, não pára por aí. Como disse o poeta funkeiro, “elas estão descontrolada, ela sobe, ela desce, ela dá uma rodada"! Bem isso! Numa dessas rodadas, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) anunciou bilhões para apoiar governos e ONGs, mas o crédito para o autônomo local continua negado. Na subida, o clima esquenta, na descida, o preço do almoço do delegado da ONU também.

Santa politicagem: é o Planeta pedindo desmatamento zero, e o Congresso se concentrando em dar recurso zero para a oposição. A justiça, assim como a burrocracia da FLOP 30, anda a passos lentos, mas faz barulho. Enquanto os politiqueiros de profissão se engalfinham tentando fazer parecer que não estão todos do mesmo lado, do lado oposto ao que está o cidadão. O povo vê suas suadas merrequinhas escorrer pelos dedos em mais um imposto, imposto pelo governo que ia tirar o pobre da pobreza. 

E continua o show de hipocrisia! Parece até poético: o agropop e o verde enganação. O agronegócio tupiniquim tenta conciliar o trator e a pauta verde. O Plano Clima terá apoio, desde que não atinja o seu superávit climático-financeiro. Afinal, conservação produtiva é sinônimo de plantar soja em larga escala, desde que a floresta derrubada seja ignorada. Só no Brasil é possível ser potência ambiental destruindo o ambiente. E esse malabarismo retórico só pode ser visto por aqui! E tudo isso, é claro, embalado por um jingle sertanejo de sustentabilidade.

Cobranças da ONU para o (des)governo tupiniquim, não faltaram. Da falta de ar-condicionado à falta de segurança, de tudo um pouco faltou, só o que sobrou na FLOP foi a desorganização. Teve comida estragada e fogo na convenção amazônica. E o que dizer da invasão da zona azul por manifestantes: ela mostrou para o mundo que o clima esquentou lá dentro e cá fora também! Disseram-me as boas línguas que o ponto alto foi a distribuição de brindes nos estandes. Canetas ecológicas e ecobags personalizadas são a base da diplomacia dos brindes tupiniquim. Por falar nisso, mais importante que o acordo, é o delegado sair da FLOP levando para casa uma lem(lam)bancinha amazônica.

Que ursos polares e degelo que nada, a onda é ficar alheio como ficou o (des)governo que focou, outra vez, no pagador de impostos. O poste Taxade pediu que a Câmara agilize a pauta para tapar o rombo fiscal. Enquanto isso, a CPMI do INSS descobriu que o esquema contra os velhinhos era mesmo desconto sem desconto. Se por um lado, a crise climática é urgente, por outro, a crise orçamentária é a nossa única constante. Por aqui, o aquecimento global não assusta tanto como nos assusta o buraco nas contas públicas. 

O déspota que (des)governa a tupiniquilândia insistiu que discutir a Amazônia dentro da Amazônia é diferente. Indiscutivelmente, ele tem razão. A tal discussão aconteceu a poucos quilômetros de um lugarejo chamado Melgaço que é o pior IDH do país. Para nós, um lembrete vergonhoso de que o maior desafio climático é também social. Em vez de financiar a vida básica, a elite globalista prefere debater o financiamento do clima, afinal de contas, é mais chique falar de carbono que de água encanada.

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