PROJETO 4.6: ANO DE FABRICAÇÃO 1979

- Uma crônica de Cao Benassi -

 

Então, o tempo, esse impiedoso Chronos, que nem aos próprios rebentos poupa, me fez chegar aos 46 anos. E do alto deles, faço o meu balanço das paisagens que vivi. O que para muitos é um marco na estrada que a pavimenta com satisfação, o aniversário para mim, sempre foi só mais um marco do qual não posso me desfazer. 

Todas as paisagens que vivi, me fizeram quem sou, sem-tirar-nem-pôr, como diria vovó Nica. De todas as paisagens, as dos tempos infantis, talvez, para o bem e para o mal, sejam as que mais me marcam. Das sombras dos amoreiros em flor aos louvores da igrejinha, da qual nunca me senti pertencente; dos domingos de caniço e samburá aos dias intermináveis de enxada na mão, o que era vivido com amargor, hoje é lembrado com saudade e com o senso de que essas paisagens poderiam ter sido melhores vividas.

Daquelas rurais paisagens brasiliandenses, paisagens urbanas outras eram imaginadas e desejadas com muita força. Como O Todo é mente e o universo é mental e em tudo há correspondência, demorou muito, mas a minha mente que é o todo do meu microcosmo, criou o universo mental da minha realidade, colocando-me em paisagens urbanas txapacruzenses e, nelas, me levou para a frente das paisagens docentes.   

Então, a carreira, já faz um certo tempo, deixou de ser fardo e foi aos poucos se tornando uma extensão muito prazerosa de meu intelecto. Após mais de uma década de experiência na docência, considero que ela (a minha carreira), já é bem mais sólida, por que não dizer consolidada?

Não me considero mais um professor apenas, mas sinto na pele o ser que conduz outros seres a um encontro com eles mesmos. Por fora e aos olhos dos outros, a plenitude tem forma: um corpo cuidado, o caminhar decidido, a inteligência afiada. Há quem diga que sou  "hors-concours", ainda dizem que sou o mais elegante e para uns outros, apenas mais um.  

Porém, o meu verdadeiro luxo, sem sombra de dúvida, é a paz interna de quem aprendeu a arte de habitar o aqui e o agora, noutras palavras, viver o presente. Eu sou o homem que desfruta o sabor da xícara de amor quente, que se deleita na textura do livro nas mãos. Sou aquele cara que no calor do sol na varanda, preparo o meu culto e no seu seu corpo nú, imolo o meu prazer em adoração a ti, ó deus entre homens. 

Peço a ti licença para fazer das suas as minhas palavras: "o universo foi muito generoso comigo!” “Eu não procurava nada, não esperava nada… e foi justamente aí que o destino me surpreendeu e me trouxe tudo: trouxe você"! É com o frescor da aurora que me permito viver o melhor de todos os amores. 

Eu não adio o riso, nem reprimo o aperto na alma. Se a melancolia me encontrar, uma lágrima discreta dos meus olhos, certamente escorrerá, molhando a barba cerrada, a barba castanha, a barba que irrita, que arranha… sem medo de parecer fraco, e a lágrima será apenas a aceitação de um dia um pouco mais cinza, de um dia cinzento.

E se a alegria irromper, o sorriso, com toda a certeza que me é costumaz, será franco e iluminará o meu rosto com a vitalidade de um jovem que está começando a viver aos 46 anos. Neste sentido, a lágrima e o sorriso foram, são e sempre serão, apenas visitas. Apenas a prova cabal de que eu estou vivo, de que estou sensível.

Nenhuma emoção, por mais intensa, conseguirá me desviar da minha rota. A felicidade plena, para mim, não é um destino, mas sim, ela é o meu próprio caminho, que é trilhado com a serenidade de quem aprendeu que a vida é feita de marés e que sabe que a bússola aponta sempre para o contentamento. 

Prazer, eu sou o Claudio, aos 46 anos, a personificação da paz que reside em aceitar tudo o que o aqui e agora me trazem!

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