PESAR - OUTUBRO DE 2025
PESAR, ANO 2, N. 22, OUT. 2025
Estamos no décimo mês do ano de dois mil e vinte e cinco. Neste número da série PESAR, iremos refletir sobre a inveja como interesse e foco. Para começar, a palavra inveja vem da palavra latina invidia, que por sua vez, deriva do verbo invidere. Esse verbo da língua latim é formado pelo prefixo in que significa contra, sem, negativo e pelo verbo videre, que significa ver. Assim, o sentido da palavra invidere é olhar com hostilidade ou olhar mal, refletindo o sentimento de descontentamento ou desejo de possuir o que é do outro.
A inveja não é mero desejo pelo que o outro tem, tampouco o sentimento de negação do merecimento alheio, mas sim um foco doloroso, ou seja, que causa dor ao perceber a diferença existente entre o que se é e o que se idealiza ser, tomando a posse alheia como régua. Neste sentido, há um interesse primordial que corrói a alegria do invejoso e transforma a admiração que existe em devir nele, noutras palavras, que existe em potencial, em ressentimento ácido e estéril. Este foco distorcido consome a energia que poderia ser usada para a autoconstrução e a conquista pessoal.
A substância da inveja é muitas vezes a falta de autoconhecimento e a dependência da validação externa, onde o valor próprio é medido pelo sucesso visível do outro. Nela, não importa o que se é, tampouco o que se pode ser em si e por si, pois ela floresce na comparação incessante. Nesse processo de comparar-se aos outros, nasce a negação da própria trajetória e que culmina na crença ilusória de que a felicidade do outro é a causa da própria infelicidade. Romper com esse ciclo exige um esforço consciente para redirecionar a atenção dada ao outro e a tudo que é externo para o mundo interior.
Para superar a inveja, o primeiro passo é a aceitação honesta desse sentimento destrutivo. Reconhecê-lo sem julgamento, é a maneira mais eficaz de combatê-lo. Além disso, também é necessário parar de nutri-lo. A observação neutra, ou seja, sem julgamentos, é necessária, mas também é preciso questionar a narrativa da inveja. Perguntar-se o que realmente desejo, é o objeto ou a sensação de sucesso que ele representa? Essa análise interna desinfla o poder da comparação externa. Ao se auto-analisar e responder a questão anteriormente apresentada, pode-se interromper o fluxo de energia que alimenta a inveja.
A inveja pode ser transmutada em admiração construtiva. Essa transmutação de energias é um processo que a filosofia antiga já apontava. O ser ao sentir dor por perceber a diferença entre o que é e o que poderia ser, levando em consideração a posse alheia, deseja o mal do outro ou a perda de seus bens. Em vez disso, o foco deve ser redirecionado para a inspiração, e assim perceber o sucesso alheio como prova de que certos objetivos são alcançáveis. Essa é a arte de aprender com o sucesso dos outros.
A mudança do interesse no sucesso alheio para a caminhada realizada até se alcançar o sucesso, pode levar o indivíduo a retirar o foco do resultado e a mirá-lo no processo, podendo então recalibrar a própria jornada. As pequenas conquistas se tornarão mais realizadores e satisfatórias, fazendo surgir a percepção de que a verdadeira superação reside no desenvolvimento da gratidão pelo que já se possui e na valorização do próprio caminho. Outra percepção que despertará no ser, é que cada indivíduo tem um conjunto singular de capacidades e habilidades, desafios e conquistas que não podem ser diretamente comparados. Neste sentido, a satisfação autêntica nasce da integridade pessoal.
Para romper com a inveja, é crucial cultivar o foco interno. Noutras palavras, é imprescindível que o ser esteja atento para si como potencial, direcionando a energia para o próprio desenvolvimento e para a realização de metas pessoais significativas. Ao se interessar e focar no sucesso alheio, o ser deixa de desenvolver seus poderes latentes, porém quando se está profundamente engajado em construir a própria vida e alcançar o próprio sucesso, todo o seu potencial é direcionado para si, Nisso, o tempo para olhar com rancor para os resultados alheios diminui drasticamente. Este é o antídoto mais eficaz.
No processo autocentrado, ou seja, na caminhada rumo ao desenvolvimento máximo do próprio potencial, a inveja cede lugar à compaixão – tanto pelo outro, cujo sucesso pode ter custos invisíveis, quanto por si mesmo, que merece paz de espírito. A maturidade filosófica conduz o ser ao entendimento que a plenitude não reside na posse, mas na capacidade de criação e na experiência de ser plenamente. O resultado será uma vida mais leve e feliz, na qual as energias do ser são aplicadas, não na dor de perceber a descompasso entre o que se é e o que se deseja ser com base na posse alheia, mas na paz de espírito de saber que se é o único responsável pelo seu próprio destino.
Como já foi dito anteriormente, a inveja é o sentimento que leva o indivíduo a desenvolver uma percepção dolorosa por não ser aquilo que o outro é, que pode ser transmutado em admiração, na qual o foco se voltará para o próprio potencial criador. Ao abandonar a régua do outro, o indivíduo finalmente se liberta da prisão da comparação. Assim o ser encontra a liberdade que a auto-aceitação e a celebração do próprio progresso, por menor que seja lhe dá. A superação da inveja é, em última análise, um ato de autonomia e empoderamento pessoal profundo e duradouro.
Por último, vale ressaltar que despertar interesse por algo elevado, não é algo assim tão fácil. Tudo em nossa vida tende a nos arrastar para baixo. Como diz o ditado popular, “para baixo, todo santo ajuda”, ou seja, qualquer descida ou queda é sempre mais fácil que uma subida. A gravidade sempre atuará a favor da descida, o que implica maior esforço na subida. Assim, para fazer a nossa consciência abandonar o interesse e o foco no sucesso alheio, é necessário um aplicar certo esforço na busca pelas nossas potencialidades e a partir daí, focar o resultado alheio como prova de que o nosso processo pode também nos levar ao sucesso.
Este texto foi produzido por Cao Benassi
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