PESAR - SETEMBRO DE 2025

 PESAR, ANO 2, N. 21, SET. 2025

No número anterior da série de textos filosóficos PESAR, refletimos um pouco sobre a fofoca, sobre como desenvolvemos interesse por assuntos que não nos dizem respeito e neles mantemos o nosso foco. Também abordamos a importância da conscientização da presença da debilidade da fofoca ou de qualquer outra em nós, para então reconhecer que é necessário mudar, e assim, aceitar e buscar a mudança, esse seria em tese o primeiro passo. Porém, o mais importante para nós, seria se manter firme no cultivo de uma vida mais virtuosa. 

Neste número, continuaremos a refletir sobre a debilidade da fofoca e formas de superá-la. Uma das formas de se fazer isso, é empreender uma busca por interesses que enobrecem a alma. Esse pode ser considerado o primeiro passo para silenciar a fofoca. Poderíamos afirmar com muita tranquilidade que uma mente que se ocupa com a arte, com a ciência ou com a filosofia, por exemplo, não tem espaço para trivialidades. Nesse sentido, o foco se volta para a beleza, a verdade e o bem, e a fofoca, consequentemente, perde seu poder de atração.

Mas o que vem a ser a fofoca? A origem dessa palavra é incerta, é talvez africana. Em sua essência, a fofoca é a manifestação de um espírito ocioso e a materialização da curiosidade dele. Ela se alimenta da falta de um objetivo de vida, noutras palavras, de um propósito maior, ausência que preenche o vazio interior com o interesse pela vida alheia. Desenvolver interesse em algo elevado e nele manter o foco, implica em cultivar um propósito, em ter projeto de vida, essa é a maneira mais eficaz de transcender essa a prática da debilidade da fofoca.

Afastar-se da fofoca e, consequentemente, abandonar sua prática, é possível ao trilhar o  caminho da elevação espiritual, tal jornada exige disciplina e autodomínio. Nela, o ser humano necessita realizar um esforço de forma consciente para, assim, direcionar a sua energia mental para atividades que lhe são fatores de soma e que alimentam, noutras palavras, que nutrem o crescimento. A alma humana é fortalecida nos por meio do desenvolvimento de atividades que lhe proporcionam aquisição de conhecimento e de sabedoria, assim, se perder em conversas inúteis provoca a sua inanição.

Falar sobre os outros não é uma prática libertadora, pelo contrário, ela aprisiona a alma do ser a um ciclo vicioso que arrasta sua consciência para baixo. A verdadeira liberdade não está no desenvolvimento do interesse pela vida dos outros e na manutenção do foco nela, mas reside na libertação da necessidade de fazê-lo. Essa libertação traz ao ser uma paz interior que é tão completa, que torna a vida dos outros desinteressante frente a ela, noutras palavras, o faz sentir que a vida de ninguém mais importa tanto quanto importa a sua própria caminhada. A fofoca nada mais é que uma prisão para a mente, e a elevação dos interesses, uma chave para a real liberdade.

Para que a debilidade da fofoca seja de fato superada, o ser humano deve escolher desenvolver interesses nobres e manter o foco neles e em coisas que elevam a alma. Nesse sentido, a disciplina é a virtude que se torna uma declaração de prioridade para se elevar o padrão mental. Esta é uma decisão de vital importância, é uma atitude que implica o crescimento pessoal e o desenvolvimento de paz interior que se tornam tesouros humanos mais valiosos que a excitação temporária de um pequeno escândalo. Essa é uma escolha qie implica maturidade e sabedoria.

Uma mente que se eleva pode ser comparada às águias, pois as águias podem voar acima das nuvens, consequentemente, se posicionam acima da zona de atuação das tempestades. Assim como as águias, as mentes elevadas podem ver a paisagem de uma perspectiva mais elevada, mais alta, de um patamar onde as pequenas disputas, as atitudes negativas e as conversas venenosas não só parecem, se tornam insignificantes, pois elas se ocupam com o sol e com as nuvens, e assim, não se prendem aos detalhes do chão.

A fofoca é uma prática que está associada ao falar da vida alheia, normalmente, o conteúdo temática dela, nunca é algo positivo, ou seja, sempre estará preso a um aspecto negativo da vida de outrem. No entanto, a fofoca é tão somente um espelho que sempre irá refletir as inseguranças e as próprias debilidades de quem a pratica. Quando a pessoa foca em interesses elevados, consequentemente, deixará de procurar falhas nos outros e começará a vê-las em si mesma e, também, a encontrar suas virtudes, tornando a caminhada débil, numa jornada de autodescoberta e de desenvolvimento de amor-próprio.

Em última análise, superar a fofoca não se trata apenas de evitar falar mal de outrem. Superar a debilidade da fofoca exige uma transformação interior. Tal ação substitui o vazio interno do ser humano por um objetivo, uma meta, um propósito de vida maior, mais elevado. Faz também a criatividade ocupar o lugar da ociosidade e a inveja dar lugar para a admiração. É uma escolha que implica uma vida plena, interessada e focada nos valores e virtudes, noutras palavras, naquilo que verdadeiramente importa.

Para finalizar esse nosso número, é importante salientar que todo e qualquer compromisso que fizermos, será pelo universo notado e nós, obviamente, seremos provados, pois o nosso comprometimento com a causa terá de ser validado e isso não tem a ver com provocar dor ou sofrimento em nós, é claro. Não há, portanto, um caminho fácil que nos conduza à plenitude da natureza humana, o que existe de fato, são eventos que atraímos para nós por afinidade e por necessidade para fins de crescimento. 


Este texto foi produzido por Cao Benassi

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