ESTAR PRONTO OU ESTAR DISPOSTO: EIS A QUESTÃO
Uma crônica de Cao Benassi
Às vezes, nossas atividades são tantas e nos tomam tanto tempo, que coisas essenciais, tais como o ócio, vão ficando em segundo plano. E não estou falando aqui de ócio no sentido que hoje conhecemos. Aquele que quando nossos ouvidos captam o signo linguístico, traz logo a imagem do ser em trajes menores, largado no sofá, sem fazer absolutamente nada. Reporto-me ao sentido original da palavra, que significa o tempo dedicado às coisas da alma.
Os últimos acontecimentos do cotidiano são desconcertantes. Pior que eles, só mesmo a forma como as pessoas, que sem capacidade alguma de distinguir fatos de opiniões e opiniões de verdades, se regozijam com a mentira e comemoram a morte. É desastrosa a condição humana neste que também é o meu tempo.
Já faz algum tempo que perdi a pouca disposição que eu tinha para as notícias tendenciosas da TV, para o cinema e seus folhetins panfletários e para tudo o que o capital e suas artimanhas nefastas armaram só para me convencer que preciso do perfume da moda, do look mais transado do momento e do celular com os melhores recursos do mercado, do lugar mais hypado: tudo isso a um pequeno custo… nada que um rim, uma córnea ou um testículo, no mercado negro, não pagaria.
Outra coisa que também perdi a minha disposição, foi para a politicagem, seus politiqueiros e asseclas. Se tem uma coisa para a qual não tenho mais disposição alguma, é politiquisse. Nem disposição, nem tempo. E por falar nisso, depois de quase dois anos das últimas eleições, fui à "Casa da Democracia”, pagar a multa pela enésima eleição sem votar.
Mas não é para falar de etimologia das palavras, TV ou do cinema, ou ainda, da política que iniciei este texto. Tudo o que escrevi até agora foi só um preâmbulo para iniciar uma outra discussão. Discussão essa que talvez, eu ainda esteja um pouco imaturo para fazer. No entanto, o querer dizer está pululando em minha inquieta mente, de forma que preciso tirá-lo do devir e lançá-lo ao dever.
Pensando em tudo o que vivi nos últimos três meses, o tema estar pronto e estar disposto tem passado repetidas vezes pela minha insistente mente. Em se tratando de relacionamento, depois de muito pensar, começo a acreditar piamente que nunca estamos de fato prontos para um.
Por mais que pensemos que com o passar do tempo, vamos nos tornando mais maduros, e com isso, mais experientes para lidar com as pessoas, e há que se ressaltar aqui, pessoas como relacionantes, ou seja, como pequenos universos singulares, cujas órbitas se entrecruzam fazendo com que suas rotas se coincidam.
A ideia de estar pronto para um relacionamento, por exemplo, me parece um tanto quanto falsa. Se existir, só pode ser a propósito de uma dada intenção. Devemos considerar cada pessoa como um universo único. Assim, o estar pronto me soa como se ao viver, experimentar e acumular experiências, fosse como instalar um software com tudo o que é necessário para o sucesso de uma relação.
Bem, sabemos que não é bem assim que a coisa funciona. Se por um lado, com os relacionamentos anteriores, acumulamos experiência, por outro lado, para estar em um novo, é necessário estar disposto, já que seres humanos não são coincidentes, ou como diria um tal filósofo Bakhtin, o ser é irrepetível na existência, logo, é singular. Não pode existir seres humanos iguais na manifestação.
Neste sentido, as experiências acumuladas em relacionamentos anteriores, nem sempre podem ser fator de soma para um novo. Em determinadas situações, elas podem ser verdadeiras barreiras para o sucesso, pois podem limitar o potencial dos relacionantes. Assim, considero que estar pronto, ou seja, ter experiência não garante e não pode garantir o sucesso de um relacionamento.
O ponto chave, penso eu, e ainda que eu possa estar enganado a esse respeito, é estar disposto. A disposição é um motor invisível. Estar disposto é ter uma força silenciosa que nos tira do lugar de conforto, não por obrigação, mas por devir, ou seja, um impulso do vir a ser, do viver. É a resposta interna que diz "sim", quando todo o mundo externo nos sugere um "talvez".
Dessa forma, poderia-se dizer que estar disposto é mais do que aceitar fazer algo; estar disposto é a vontade que saiu da mente e que virá e estará no coração. Estar disposto é o oposto da inércia. É aceitar que mergulhar no desconhecido universo do outro, mesmo sem saber qual a profundidade e o que se irá encontrar ali. É aceitar o movimento da vida e bailar sua beleza, mesmo sem saber os passos nem a coreografia. É a coragem de começar, mesmo sem a garantia de um final feliz.
Estar disposto é uma escolha que se renova a cada sorriso, a cada lágrima, a cada amanhecer. Estar disposto é uma pequena faísca que ilumina os caminhos incertos. Dispor-se é o primeiro passo para o novo, a pequena semente que, plantada hoje, florescerá no amanhã.
Estar disposto é a certeza de que a vida não acontece para quem espera, mas para quem se move. É ser, por inteiro, a própria ação. Neste sentido, posso concluir que estar pronto para um relacionamento não é estar inerte, esperando apenas que o já vivido se repita, enquanto que estar disposto é uma abertura para o novo, que toda e qualquer relação humana exige, pois como afirma um tal filósofo Bakhtin, somos seres em constante modificação.
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